Na
noite marcada para “ouvir a população”, o que se viu foi um déjà vu coletivo
com direito a plateia indignada, microfone disputado e uma lista de problemas
que, se fossem resolvidos, talvez deixassem a reunião sem assunto (o que,
convenhamos, seria revolucionário).
Entre
uma fala e outra, surgiu ela: Maria da Conceição, moradora da famosa Rua 90,
hoje mais conhecida como “prova prática de resistência off-road”. Sem rodeios,
foi direta:
— “A rua está intrafegável. Nem moto tá querendo mais passar por lá, quem dirá carro!”
E
não parou por aí.
Maria,
que já poderia receber um diploma honorário em “Persistência Urbana Aplicada”,
relembrou que o Ministério Público já notificou duas vezes a Semob para
resolver a situação da calçada dela destruída, segundo a própria, por uma
ligação clandestina feita “lá atrás”, na época do Saaep.
—
“Quebraram,
sumiram e deixaram a lembrança. A calçada virou obra histórica abandonada!”.
E
assim seguiu a audiência.
As
denúncias? As mesmas de sempre, com aquele ar de clássico que nunca sai de
cartaz:
·
Infraestrutura (ou a falta dela, que é mais presente)
·
Pavimentação (um conceito ainda em fase de estudo em algumas ruas)
·
Água (quando vem, é festa; quando não vem, é rotina)
·
Saúde
·
Educação
Tudo
muito conhecido, quase íntimo da população.
Mas
o verdadeiro plot twist da noite não estava nas falas dos moradores e sim nas
ausências.
Foi
uma audiência democrática… com monólogo.
O
que corre “a boca pequena”, o comentário que circulava com mais velocidade que
carro em rua asfaltada era de que teria havido uma orientação direta do
gabinete do prefeito: ninguém do alto escalão deveria comparecer.
Coincidência?
Estratégia? Mistério digno de série.
Enquanto
isso, no palco da realidade, os moradores continuaram fazendo o que sabem fazer
melhor: falar, denunciar, insistir e, principalmente, cobrar.
Porque
no Nova Carajás, se tem uma coisa que não falta, além de buraco, é memória.
Na saúde, falta até esparadrapo no posto de saúde. Os presentes fizeram duras críticas a atual gestão e sobrou até, inclusive pra quem, tecnicamente, nem segura a colher da obra. Sobrou até para o presidente da Câmara.
Em
meio às falas inflamadas, alguns moradores direcionaram a insatisfação ao
Legislativo, cobrando resultados concretos, obras visíveis, soluções imediatas.
A cena quase virou um episódio de “quem resolve o quê”, não fosse um detalhe
básico — e pouco conhecido por muita gente:
O
papel do Legislativo é outro: fiscalizar, cobrar e indicar melhorias. Mas, na
prática, quando o buraco está na porta de casa, a teoria institucional perde
espaço para a urgência do dia a dia.
E
aí, meu amigo… sobra cobrança pra todo mundo.
No
meio desse cenário, uma professora pediu a palavra e trouxe um dado que
arrancou mais suspiros do que esperança. Segundo ela, a secretária de educação,
Maura
Paulina, visitou a escola Milton Martins cerca de um mês e teria
feito cerca de 15 promessas voltadas para melhorias na escola, e até agora,
apenas uma teria saído do papel:
—
“Pintaram o
chão.”
Sim, o chão.
A
frase, dita quase sem acreditar, ecoou no plenário com aquele misto de ironia e
frustração que já virou marca registrada dessas reuniões.
Mas
a resposta não demorou.
O
vereador Zé
do Bode, atento ao clima e à pressão crescente, tratou de
destacar que o presidente da Câmara, ao longo do mandato, já apresentou 15 indicações
de melhorias para a educação no bairro. Preposições que foram ignoradas
pelo executivo por pura vaidade do atual gestor.
Quinze.
Um número que, curiosamente, bate com o das promessas mencionadas pela atual
secretária de educação, mas que vive em outra dimensão: a das propostas que
aguardam execução.
Nos bastidores, o que se comenta é que
parte dos projetos vindos da Câmara enfrenta uma resistência que vai além da
burocracia. Há quem diga que, quando as solicitações partem de vereadores de
oposição, elas acabam sendo engavetadas como se disputas políticas pesassem
mais que as necessidades urgentes da população. Enquanto isso, quem mora no
bairro segue esperando respostas concretas.
Entre o que é papel de um, obrigação de outro e ausência de muitos, o que sobra mesmo é a sensação de que o problema já é conhecido só falta combinar com a solução.
Sobre a iniciativa da Câmara Municipal de Parauapebas, realizar as audiências públicas, o presidente da Câmara, Anderson Moratório, enfatizou que, somente no ano passado, foram realizadas 11 audiências públicas para discutir o PPA do município. Encontros que reuniram a população, ouviram suas necessidades no qual resultaram em mais de 30 demandas apresentadas de forma legítima pelos moradores. No entanto, segundo ele, a maior parte desses projetos acabou sendo vetados pelo prefeito, o que levanta um questionamento inevitável: qual o real sentido de mobilizar a população, abrir espaço para escuta e incentivar a participação popular, se, na prática, essas vozes são ignoradas por quem tem o poder de transformar pedidos em ações? Ainda assim, Moratório reforçou que a Câmara não aceitou esses vetos, reafirmando que o compromisso do Legislativo deve estar acima de disputas e alinhado.


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