Existem manhãs que chegam devagar. A casa ainda está silenciosa, o dia começa a clarear pela janela e, por alguns minutos, tudo parece estar exatamente onde deveria estar. O café começa a perfumar a cozinha, uma brisa atravessa o ambiente e somos convidadas, ainda que sem perceber, a simplesmente existir.
São nesses pequenos momentos que encontro uma paz tão linda.
Tenho pensado muito sobre como a vida é feita de coisas aparentemente simples. Uma manhã tranquila. O cheiro do café. Uma música antiga tocando baixinho. Uma conversa que nos faz sorrir. O silêncio depois de um dia cansativo.
Talvez a felicidade nunca tenha sido feita apenas dos grandes acontecimentos. Talvez ela more mesmo nos detalhes que quase sempre deixamos passar.
Mas também existem os pensamentos.
Aqueles que chegam sem serem convidados e ocupam espaços demais dentro de nós. Pensamentos que nos lembram dos erros, das escolhas que poderiam ter sido diferentes, das palavras que gostaríamos de não ter dito e dos caminhos que não conseguimos percorrer. E, às vezes, somos duras demais conosco.
Curiosamente, aprendemos a ser gentis com tantas pessoas. Compreendemos as dores dos outros. Perdoamos seus atrasos, suas falhas, seus silêncios. Tentamos oferecer palavras de conforto quando alguém está perdido.
Mas quando somos nós a precisar de compreensão, parece que toda a gentileza desaparece. Estava aqui pensando quantas vezes eu me cobrei por não ter conseguido fazer tudo. Quantas vezes me senti culpada por estar cansada!
E isso traz uma reflexão necessária. Você que está lendo esse post. Quantas vezes olhou para si mesma com uma severidade que jamais usaria com alguém que ama? Foi fazendo essa pergunta pra mim mesma que aprendi que preciso guardar um pouco da minha gentileza para mim também.
Não posso entregar toda ela ao mundo e deixar minhas próprias mãos vazias. Preciso me permitir errar, descansar, recomeçar, mudar de ideia, sentir saudade, sentir tristeza. E, ainda assim, continuar acreditando que estou fazendo o melhor que posso com a vida que tenho agora.
Nem todos os dias serão leves. Algumas manhãs serão silenciosas demais. Algumas tardes carregarão pensamentos difíceis. E haverá momentos em que tudo dentro de nós parecerá uma grande tempestade. Mas tempestades também passam. A chuva leva algumas coisas.
E hoje, apreciando essa manhã bonita de domingo. Eu só quis preparar um café. Observar a luz entrando pela casa. E lembrar que, apesar de tudo, ainda estou aqui. Ainda existem novos caminhos. Novas manhãs.
E talvez a maior gentileza que eu possa me oferecer hoje seja parar de exigir tanto de mim mesma. Afinal, também mereço receber a mesma delicadeza que tantas vezes ofereço aos outros. Porque a vida pode ser difícil, confusa e, em alguns momentos, profundamente melancólica.
Mas ainda existem manhãs bonitas. E lembrar que nem tudo está perdido.




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