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6 de setembro de 2026

A gentileza de uma manhã comum

Existem manhãs que chegam devagar. A casa ainda está silenciosa, o dia começa a clarear pela janela e, por alguns minutos, tudo parece estar exatamente onde deveria estar. O café começa a perfumar a cozinha, uma brisa atravessa o ambiente e somos convidadas, ainda que sem perceber, a simplesmente existir.


São nesses pequenos momentos que encontro uma paz tão linda.


Tenho pensado muito sobre como a vida é feita de coisas aparentemente simples. Uma manhã tranquila. O cheiro do café. Uma música antiga tocando baixinho.  Uma conversa que nos faz sorrir. O silêncio depois de um dia cansativo.


Talvez a felicidade nunca tenha sido feita apenas dos grandes acontecimentos. Talvez ela more mesmo nos detalhes que quase sempre deixamos passar.

Mas também existem os pensamentos.


Aqueles que chegam sem serem convidados e ocupam espaços demais dentro de nós. Pensamentos que nos lembram dos erros, das escolhas que poderiam ter sido diferentes, das palavras que gostaríamos de não ter dito e dos caminhos que não conseguimos percorrer. E, às vezes, somos duras demais conosco.


Curiosamente, aprendemos a ser gentis com tantas pessoas. Compreendemos as dores dos outros. Perdoamos seus atrasos, suas falhas, seus silêncios. Tentamos oferecer palavras de conforto quando alguém está perdido.


Mas quando somos nós a precisar de compreensão, parece que toda a gentileza desaparece. Estava aqui pensando quantas vezes eu me cobrei por não ter conseguido fazer tudo. Quantas vezes me senti culpada por estar cansada!


E isso traz uma reflexão necessária. Você que está lendo esse post. Quantas vezes olhou para si mesma com uma severidade que jamais usaria com alguém que ama? Foi fazendo essa pergunta pra mim mesma que aprendi que preciso guardar um pouco da minha gentileza para mim também.


Não posso entregar toda ela ao mundo e deixar minhas próprias mãos vazias. Preciso me permitir errar, descansar, recomeçar, mudar de ideia, sentir saudade, sentir tristeza. E, ainda assim, continuar acreditando que estou fazendo o melhor que posso com a vida que tenho agora.


Nem todos os dias serão leves. Algumas manhãs serão silenciosas demais. Algumas tardes carregarão pensamentos difíceis. E haverá momentos em que tudo dentro de nós parecerá uma grande tempestade. Mas tempestades também passam. A chuva leva algumas coisas.


E hoje, apreciando essa manhã bonita de domingo. Eu só quis preparar um café. Observar a luz entrando pela casa. E lembrar que, apesar de tudo, ainda estou aqui. Ainda existem novos caminhos. Novas manhãs.


E talvez a maior gentileza que eu possa me oferecer hoje seja parar de exigir tanto de mim mesma. Afinal, também mereço receber a mesma delicadeza que tantas vezes ofereço aos outros. Porque a vida pode ser difícil, confusa e, em alguns momentos, profundamente melancólica.


Mas ainda existem manhãs bonitas. E lembrar que nem tudo está perdido.


2 de janeiro de 2026

O Desassossego da Felicidade Numa Noite de Trópicos!

Sempre gosto de escrever algo no início do ano, mas não era o caso. Não desta vez.  Mas o universo tem um jeito singelo de nos surpreender e há momentos em que a felicidade provoca uma sensação quase contraditória. Um desassossego! Eu sofro de excesso de vida, passando aqui dentro. Eu sinto demais, tudo com muita intensidade. E sentir demais, mesmo quando algo bom acontece, pode gerar um certo desconforto,  como se o coração não soubesse exatamente onde colocar tanta emoção.

 

Isso juntado ao calor extremo dos trópicos me trouxe insônia e uma desarmonia no peito. Senti que precisava escrever. Boas emoções vêm acompanhada de um medo sutil de perder ou de não conseguir sustentar aquilo que faz bem. É a estranheza de perceber que a felicidade também exige coragem

Sentir profundamente as emoções é aceitar essa mistura confusa e entender que o desconforto não anula o que é bom; ele apenas revela o quanto aquilo importa. Quando algo nos toca de verdade, nos tira do lugar de conforto que nos colocamos evitando muitas vezes os dessabores que construímos no imaginário. É uma blindagem, uma proteção que nos assegura a tranquilidade do não fracasso.

 

Como falei, o universo nos surpreende, cumpre seu papel e as vezes nos jogam pro alto, dando uma sacudida naquilo que só queríamos deixar quietinho, adormecido.  E toda transformação assusta um pouco. Já escrevi aqui sobre as mudanças e os efeitos que elas causam em mim, assim também são certas emoções. Ainda assim, é nesse espaço sensível, entre o prazer e o receio, que a vida acontece de forma mais autêntica e cheia de significado.

 

E quando as emoções não cabem no peito, eu preciso colocá-las em outros lugares, e a escrita é um deles. Eu me valho dessa grandiosa obra para dedilhar os teclados e assumir a fragilidade da vida. Eu falei exatamente sobre isso num artigo que escrevi em 2022 O poder da escrita, como eu uso a escrita para trabalhar minhas emoções. 

 

Pode ser que essa estranheza toda seja pela falta do trabalho. A gente é mesmo um ser estranho, não vê a hora de chegar os dias de descanso e quando eles chegam, passados alguns dias a inquietude também aparece e a gente sente falta do trabalho, daquela correria.  A rotina, mesmo cansativa, funciona como um eixo. Quando ela se rompe, somos obrigados a encarar o que sobra,  nós mesmos, sem obrigações. É nesse intervalo instável que surgem insights, desejos adormecidos e a chance de reorganizar o interno antes que a rotina volte a nos vestir de normalidade. 

 

Eu acho que não escrevi coisa com coisa nesse post, (risos). Deve ser coisas da Lua. Será! Enfim, o resultado de toda essa hipersensibilidade emocional da noite passada é talvez mais um fim de mais um bloqueio criativo ou quem sabe apenas o resultado das surpresas que a internet chata traz, he, he...eu falo disso 👉  Aqui! Então, vamos começar o ano com  esperança. 🍁

 

 

 

 


5 de outubro de 2025

Outubro Dourado

 

O domingo sempre foi meu dia preferido para escrever. Talvez pela sua melancolia e quietude. Eu tenho ressalvas sobre o domingo. Para as famílias, astral, para os solitários, o inferno. 


É no domingo que encontro um tempo tranquilo para me sentar e escrever. Imagino que muitos no sul do país já estejam mergulhados no clima de primavera, por aqui o sol brilhou generoso. Outubro dourado e o ar sempre cheio de promessas que sempre chega com motivos para celebrar.  Tem Círio, tem dia das crianças. 


Na paisagem somente pequenas flores, a natureza parece sonhar um pouco mais tímida este ano. Enquanto isso, minhas mãos se ocuparam com muitos papéis de Ofício.



O fim de semana me pediu repouso, e assim fiquei, quieta, entre meus eus. Mas algo extraordinário aconteceu. Mas isso é assunto para outro post. 


Sobre a brevidade da vida, e sem grandes esperanças, eu tentei me conectar com um de meus sonhos mais secretos. E ontem eu pude ver de perto um animalzinho, desses que não tem muita vida, que apenas se alimentam e desaparecem. Há algo profundamente comovente nessa brevidade. 


Comece a semana com leveza e me conte, se quiser, como você encontra aconchego nesta época do ano, quando os dias parecem mais cinzentos e quentes! 

Beijocas 👄


12 de setembro de 2025

Agosto em palavras

 

Agosto foi modesto. Não recordo de um agosto em tempo normal, geralmente é uma eternidade. Meu estado de saúde mental me deixou com inquietações mais uma vez. As vezes no silêncio de casa o que eu mais queria era subir uma colina pequena e passar um tempo em uma floresta de carvalhos. As vezes queria que as coisas fossem mais fáceis.


Aqui não temos inverno de verdade, ele só aparece no calendário das estações. É verão todo tempo. Me senti muito cansada devido ao calor extremo, mesmo assim, estava cercada por um mundo bem-intencionado, cheio de pequenas belezas e alegrias serenas. Meu filho  contribuie muito para isso. Ele é como um refúgio, é um consolo suave e curativo. Houve lágrimas e também castelos no ar que ruíram, mas a vida, silenciosa, continua.


Tenho uma lembrança a compartilhar...Apareceram dois gafanhotos, estava na casa de uma pessoa e os vi pousado em uma planta. Os gafanhotos sempre me causaram estranheza. Eles me remetem às pragas do Egito, como se carregassem consigo uma memória coletiva de devastação. Mesmo tão pequenos, parecem anunciar desordem, um contraste perturbador diante da delicadeza das flores e da calma dos campos. Mas depois de uns dias me pus a pensar nos gafanhotos. Como um hiper foco. Só sei que preciso estudar mais sobre eles. 




18 de julho de 2025

Sob o Céu de Coisas Simples

 

Cheguei sem pressa, como quem não sabe muito bem o que procura, mas sente que precisa parar. Aqui é tudo muito simples. As manhãs começavam com o canto distante de algum pássaro e o cheiro de brisa. O céu, sempre claro,  exageradamente azul.


As vezes converso com o silencio. As gramíneas altas balançavam com o vento, e eu as olhos como quem tenta lembrar alguma coisa antiga.


As delícias do campo são muitas. O mel fresco, ainda com cera. Escorrendo devagar, dourado, pesado. Havia algo de hipnótico naquela imagem. Fiquei ali um tempo, olhando aquilo escorrer como se fosse o próprio tempo: lento, bonito e impossível de segurar.


O campo tem esse poder. De fazer tudo parecer mais calmo e, ao mesmo tempo, mais triste. A luz está tão bonita, o calor era leve, e mesmo assim, dentro de mim, crescia uma saudade que eu não sabia explicar. Saudade de quem? De quando? Talvez de mim mesmo.

No fim da tarde, a luz vai embora devagar. O céu se despedia em tons suaves, e eu sentindo que todo esse silêncio fala sobre coisas que não voltam mais.

 

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